terça-feira, 23 de agosto de 2011
Aquele Rosto.
Prefácio.
Dizem que apenas quando encontramos o verdadeiro amor é que descobrimos o que faltava na nossa vida: a felicidade. Quando estamos na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira. Nessa vida inteira apenas precisamos de mais uma pessoa conosco. O encontrar do par perfeito é o maior problema, pois a maior parte das pessoas vê no problema do amor, em primeiro lugar, o de ser amado e não o da própria capacidade de amar. Quando nos sentimos dispostos a amar alguém sem esperar nada em troca, sem exigir e sem querer é que nós conseguimos entender o que é o amor. É amando loucamente que nós amamos bem e nos sentimos felizes por inteiros, apenas por saber que amamos. E quando eu descobri como é amar e ser feliz? Quando eu vi aquele rosto.
I. Girl - The Beatles
Quero que todos saibam minha história: a de alguém que teve sua vida revirada. Alguém que tinha tudo, mas depois não tinha mais nada. Por um simples rosto. Sim, um rosto. Mas não era um rosto comum. Os olhos pareciam duas amêndoas delicadamente curvadas para baixo, na linha horizontal que ultrapassava as duas pequenas orelhas, as ligando em uma só direção. E as sobrancelhas bem desenhadas e compatíveis com o formato harmônico do rosto. Além de realçarem a beleza grandiosa dela e suas expressões marcantes, evidenciavam uma personalidade forte. O nariz, levemente avermelhado e empinado, mostrava o quão sedutora ela conseguia ser, com a parte inferior das narinas sobre a linha média facial e sua vértice alinhada com o queixo. A boca bem vermelha desenhada e avantajada com a cara do pecado.
Foi andando no meio de uma multidão exaltada e preocupada, em uma terça feira qualquer, no meio de um outono gélido, que eu vi esse rosto que não vou esquecer - era diferente de qualquer outro. Não apenas pela beleza e harmonia pitoresca, mas também pelo elo que ele formava com qualquer um que o olhasse. Parecia um poema esculpido por um parnasiano, todo simétrico e cativante. Só de me lembrar daquele rosto é como se meu coração pulsasse como o de um beija-flor apaixonado. Uma atração jamais sentida; uma beleza jamais vista; mistérios nos olhos jamais percebidos antes.
Vinha na minha direção, podia sentir seus olhos presos aos meus. Via seu corpo ultrapassar as pessoas que estavam em seu caminho. Era como se o corpo dela dançasse uma melodia imaginária, quase um prelúdio de Bach com seus acordes drapeados superando qualquer prosa clássica no quesito romance idealizado. Era encantadora dos pés a cabeça, quando andava parecia que só tinha nós dois naquela rua. Era como se ela viesse para mim, para os meus braços, só para os meus. Sentia que já a conhecia; sentia que era minha, queria tê-la. Quanto mais seu corpo se aproximava do meu mais eu podia imaginar seu perfume doce nuançado com o ar mantendo uma diferença sútil entre o que respiramos e seu aroma. Intoxicado pelo olor de seus cabelos e pelo gosto da luxúria, não lembro exatamente do momento em que passou do meu lado e sumiu pela avenida que cruza com a rua 250. Só me lembro detalhadamente das suas curvas, totalmente alucinógenas.
Se fosse qualquer outro dia, qualquer outra terça feira, qualquer outro outono gélido e se talvez eu tivesse olhado para qualquer outro lado, eu nunca teria a visto e nunca teria sonhado com ela naquela noite. E teria visto qualquer outra, menos ela.
Is there anybody going to listen to my story
(há alguém aí que vai ouvir minha história)
all about the girl who came to stay?
(tudo sobre a garota que veio para ficar?)
she’s the kinda of girl you want so much
(ela é o tipo de garota que você quer muito)
it makes you sorry
(que te deixa com pena de si mesmo)
still you don’t regret a single day
(ainda que você não se arrependa por um único dia)
oh girl! girl! girl!
(oh garota! garota! garota!)
II. I got to find my baby - The Beatles
Em noites consecutivas, involuntariamente, nos encontrávamos nos meus sonhos. A partir daquele dia eu entendia os sentimentos que dominavam os apaixonados fazendo deles como se vivessem sonhando acordados. O olhar dela, em mim, radiava; me afastava de todo o mal que preenche as almas dos solitários - como nenhum nunca fez igual. Era como uma musa de alma pura para mim. Eu tocava-a e imaginava-a. Eu estava bem assim; eu me contentava com isso. Eu queria ser o teu dono, para nos braços dela poder ficar em noites que o sono me acometia. No corpo perfeito da minha musa eu queria cair e sonhar.
Era o suficiente para eu ter uma boa noite de sono e um dia seguinte tranquilo: sonhar com a imagem dela. Minha vida estava melhor, eu estava mais disposto. Era como se tudo fosse mais fácil, apenas por saber que aquele rosto existia. Mas com o tempo tudo parecia ficar incompleto. Esse amar sem o toque de pele era simplesmente um castigo. Queria amar com os olhos, mesmo que fosse apenas uma troca de olhares. Ficar sem aproximação, sem o apego das mãos, sem a emoção do prazer não servia mais para mim. Era como viver o desprazer do amor e a dor do sonho sem fim.
Tentava, inutilmente, reparar essa sensação com outras mulheres. Umas até que eu encontrava por aí e por a cá, mas eu não conseguia manter nenhum relacionamento. Comecei a imagina-la no lugar de qualquer outra que eu me aproximava. Não importava quem era, o rosto dela era o que eu via. Toda vez que eu andava por alguma rua ou avenida, por instinto, eu olhava no meio da multidão para ver se encontrava-a de novo. Vê-la mais uma vez começou a ser um desejo. Eu já estava ficando paranóico; eu sabia que precisava dela. Resolvi que iria procura-la, meus amigos acharam loucura. Que seja loucura então. Era o que eu queria e era o que eu iria fazer: procurar por ela.
I'm gonna search this town from door to door
(Eu vou procurar nessa cidade, de porta em porta)
Love I crave, I can't find no more
(O amor que eu almejo, não posso achar mais nenhum)
I gotta find my baby, I deserve a little light
(Eu vou conseguir achar minha querida, Eu mereço um pouco de luz)
III. Something - The Beatles
O primeiro lugar que eu pensei em procura-la foi o lugar em que eu a vi. Esperei chegar terça-feira e fui no mesmo horário para aquela rua, exatamente no mesmo lugar. Mesmo já tendo se passado alguns meses, a avenida e a multidão pareciam as mesmas. Aquele sentimento de pressa dos carros e dos pedestres sobrepunham todos os cantos daquele lugar. O que me remetia à esperança de vê-la de novo. As horas passavam e pareciam vazias, como se nada acontecesse enquanto eu esperava. Pessoas passavam por mim, algumas tão apressadas e preocupadas que nem me notavam parado ali anômalo a todos, outras, mais atentas, percebiam e me olhavam. A pergunta de o que eu estaria fazendo parado em uma avenida movimentada estava estampada nesses rostos. Mas parecia que essa espera não ia ter um final, o que me fazia pensar se eu estava certo, se estava agindo como estúpido ou simplesmente crédulo. Mas eu estava certo, eu a vi de novo.
Ela percorria o mesmo caminho da outra vez. E eu só conseguia pensar em como eu a queria. Seu corpo se movimentava junto com o dorso, quase ensaiado. O cabelo, agora, com duas cores - duas cores frescas que refletiam os raios solares. “Como ela é linda” passava na minha cabeça como uma música em repetição. Seu vestido azul escuro parecia estar bem enrolado e preso no corpo, mostrando as faces do desejo. Minhas mãos suavam frio ao vê-la se aproximando. Eu não sabia o que fazer, não sabia se falava algo, meu cérebro não processava nada, apenas meus olhos agiam encarando-a. Seus cabelos ruivos estavam jogados ao vento. Meu estômago estava se remexendo e desconfortável igual ao de uma criança com medo do escuro.
Diferente do outro dia, ela retribuía o mesmo olhar preso aos meus olhos. O olhar dela era muito mais do que uma função fisiológica, era uma linguagem forte. Um universo carregado de sentido; a condensação do mistério; o relato do destino. Quando passou do meu lado senti seus olhos ligados aos meus, eram dois mares azuis em que eu não me importaria em me afogar. Seus lábios se contorceram em um singelo sorriso e saiu andando. Nesse momento eu sabia o que fazer. Sem pensar duas vezes fui seguindo-a. Meu corpo necessitava; meu coração pedia; meu cérebro obedecia. Segui-a por no mínimo dez minutos, só a perdi de vista quando ela adentrou uma lanchonete lotada. Seu letreiro gigante “Prudence’s” me informava o lugar que eu iria procura-la no dia seguinte: era lá.
Something in the way she moves
(Alguma coisa no jeito que ela se move)
Attracts me like no other lover
(Me atrai como nenhuma outra)
Something in the way she woos me
Alguma coisa no jeito que ela me fascina)
I don't want to leave her now
(Eu não quero deixá-la agora)
You know I believe and how
(Você sabe, eu acredito e como)
IV. I Saw Her Standin' There - The Beatles
Foi realmente o que eu fiz: ir lá, atrás dela. Era uma quarta-feira, horário de almoço. Perfeito. As pessoas que estavam lá tinham todas as mesmas feições e expressões, não sei se era por todos estarem engravatados e com aquela cara de que tinham pouco tempo para voltar ao trabalho ou por nenhum deles serem quem eu queria ver.
Não foi difícil achá-la, a mais bela de todo o estabelecimento sentada sozinha olhando para a janela. Me acomodei em uma mesa que tinha uma boa visão dela. Dava para ver os raios do sol refletirem na janela perto dos seus cabelos, eles brilhavam. Parecia tão indefesa, delicada e irresistível.
Eu sabia o que fazer. Chamei o garçom e pedi uma caneta emprestada, abri o guardanapo e rabisquei trêmulo “Terei o prazer de vê-la aqui amanhã?”, pedi que entregasse à ela. Naquele momento eu não tinha noção alguma do que estava fazendo, muito menos na hora que eu observei o mesmo atravessar a lanchonete segurando o pequeno papel e depositar naquelas mãos surpresas. Foi o meu momento de maior tensão. Senti meu rosto queimar quando o jovem vestido com o uniforme do estabelecimento apontou para mim, mas senti meu corpo gritar de felicidade quando ela esboçou um sorriso e voltou-se ao pequeno guardanapo. Em menos de minutos uma resposta veio: “Talvez”. Foi o suficiente para mim. Perdi no mínimo uns minutos apreciando sua letra um pouco torta e fina. Quando levantei meu rosto para olhá-la de novo e poder ver outro sorriso esboçado, ela não estava mais lá. Tinha desaparecido sem deixar rastros, o que me fez pensar se tinha perdido mais tempo do que imaginado. Não fiquei me importando muito, apenas levantei e saí.
A ansiedade me corroía e eu parecia um adolescente afundado no seu primeiro amor, não um cara em seus trinta e dois anos e já com uma certa experiência. No dia seguinte, cheguei mais cedo. Sentei na mesma mesa do dia anterior. Na minha cabeça a ideia de fazer tudo igual ao outro dia me parecia mais plausível, mas nada dela chegar. Passou-se horas e o que era começo de horário de almoço já estava ultrapassado. Eu estava quase desistindo quando senti seu perfume passar por mim e arrastar minha visão em sua direção. A vi atravessar o local como uma onda no meio do mar, puxando todos consigo. Sentou-se também no mesmo lugar. Tudo parecia uma cópia fiel do dia anterior a não ser por ela não se espantar em me ver encarando-a, parecia até que esperava por esse feito. E esboçou outro sorriso. Um que me fez perder as coordenações e me fez viajar.
Repeti a ação do dia anterior e dessa vez mandei um guardanapo escrito com uma letra mais firme e menos tremida. “Bom vê-la de novo” foi tudo que eu consegui enviar e como resposta, obtive nada menos e nada mais que uma leve risada que ecoou nos meus ouvidos como a melodia perfeita no tom certo, mesmo ela sentada parcialmente longe de mim, e se fixou na minha mente como uma memória redundantemente inesquecível. Foi nesse momento que eu percebi que eu precisava dela mais do que qualquer coisa.
Well she looked at me, and I, I could see
(Bem, ela olhou pra mim, e eu, eu pude ver)
That before too long I'd fall in love with her.
(Que em pouco tempo eu me apaixonaria por ela)
She wouldn't dance with another
(Ela não dançaria com outro)
When I saw her standin' there
(Quando eu a vi parada lá)
V. Baby it’s you - The Beatles
Semanas se passaram constituídas nessa rotina. Dava a hora do almoço e estávamos lá, trocando pequenos bilhetes, cada dia com uma frase diferente. E sem perceber, com essa rotina, minha vida e todo o universo que ficava a minha volta se modificavam. Eu me sentia mais vivo, com um propósito de levantar todos os dias da cama e pisar na rua. Eu não estava detendo o que estava acontecendo comigo, todas essas modificações pareciam me fazer caminhar e arrastar as mazelas que eu normalmente carregaria nos meus dias. Tudo parecia fazer sentido sobre o que eu era e o porque de eu estar sorrindo.
- Já sabe o nome dela, Jude?
- Não.
Nunca havia perguntado sequer seu nome, sua idade ou seu telefone. Eu sabia que não precisava disso, não ainda. Na verdade, nunca havia chegado muito perto dela; mantínhamos sempre a mesma distância de mesas. Eu estava vivendo um relacionamento sem me aproximar, sem tocar, sem envolver. Ele era revestido de fantasias, idealizações e, principalmente, medo. Medo de não ser atendido aos anseios e sentimentos. Mas um dia eu percebi que não aguentava mais, precisava pelo menos ouvir a voz - uma que eu já vinha imaginando.
Em uma sexta-feira nublada tomei coragem e resolvi que iria me aproximar mais. Antes de ir ao “Prudence’s”, que já poderia ser considerado meu lugar favorito, passei em uma floricultura e comprei um simples botão de rosa vermelha, apenas um. Segundo minha avó, a rosa é o símbolo de Afrodite, o ápice da paixão, do sangue e da carne. E era exatamente como eu estava me sentindo.
Ao chegar lá, ela já estava sentada em seu acomodado lugar. Ouso dizer que me esperava, estava em seus olhos. Seu delicado rosto estava sereno e rígido, transmitindo a paz e a vontade - o rosto que me dominava e era o motivo de eu estar naquela situação totalmente bizarra. Respirei fundo e fui andando em sua direção, que mantinha sua visão fixa em mim, não se espantou ao me ver tão perto. Ou pelo menos não demonstrou. Entreguei a rosa e o meu melhor sorriso. Ela encarou a flor por uns segundos e me olhou de volta.
- Achei que não viria hoje.
Meu coração saltou ao ouvir aquela doce voz, era o melhor agradecimento que eu poderia receber. A voz parecia com o vento e levava embora todo o silêncio presente na minha cabeça. Eu tinha perdido o rumo.
- Eu não conseguiria não te ver.
Forcei a melhor voz que eu tinha, queria parecer firme à altura e que eu a merecia. Não podia sequer parecer fraco, queria parecer decidido. Na verdade, eu queria impressioná-la. Por esse motivo, logo depois saí andando e deixei com ela um certo mistério no ar. Não sabia o que estava fazendo, se era certo ou errado, estúpido ou corajoso, só sei que fiz. Antes de abrir a porta e sumir, olhei para trás e vi que ela ainda olhava a rosa e sorria singelamente.
Não consegui dormir à noite, só conseguia reviver aquela cena na minha cabeça. “Ah’ querida, é você”, sussurrei e adormeci.
Wo ho, many many, many nights go by
(Wo ho, muitas, muitas, muitas noite passam)
I sit alone at home and I cry over you
(Sento sozinho em casa e choro por você)
What can I do?
(O que eu posso fazer?)
Can’t help myself
(Não consigo evitar)
Cause baby it’s you
(Porque querida, é você)
VI. Eight Days a week - The Beatles
Cada dia um botão de rosa vermelha aumentava e minha paixão crescia. Segundo uma senhora de boa presença que eu conheci quando estava em torno dos meus 14 anos e trabalhava em uma floricultura localizada perto da minha casa, para ganhar uns trocados que fossem suficiente para ir ao parque, as flores dizem tudo que uma mulher quer escutar, e quanto maior for a quantidade, mais encantadas e envolvidas pelo aroma e pela paixão elas ficam. Na época não entendi direito o que aquela senhora de pele enrugada como sinal da idade e com longos cachos castanhos muito bem presos, vestida em um largo pano bege, queria me dizer enquanto escolhia orquídeas. Mas ela me olhava de uma maneira tão misteriosa e significativa que nunca a esqueci e muito menos desse conselho que me parece tão útil agora.
Logo após adentrar o “Prudence’s”, segurando um buquê de 48 rosas vermelhas, escolhidas a dedo, andei confiante à mulher de vestido rosa claro que me esperava atenta e séria, semelhante a uma dama. Ela esboçou um pequeno sorriso discreto, mostrando todo seu requinte e classe, e me olhou com aqueles olhos azuis bonitos e curvados. Seus cabelos ruivos estavam muito bem puxados para trás, formando um coque alto e firme, mas uma mecha fina estava solta, caindo do lado esquerdo e se curvando de acordo com a bochecha levemente rosada, mostrando resquícios de simplicidade e espontaneidade. Parecia uma bailarina russa. Minha pequena bailarina russa.
Sem pensar nem duas vezes, estiquei o buquê a ela e a vi pegá-lo delicadamente. Pude escutar segundos depois sua doce voz falar:
- Lucy. Meu nome é Lucy. - Soou tão calma, como se o tom de sua voz tivesse sido cuidadosamente escolhido. Senti-me escutando uma poesia clássica, e eu era o seu auditório atento à declamação de seu nome. Era tudo que eu queria naquele momento, saber o nome dela, e parecia que a mesma sabia bem disso. As expressões de Lucy denunciavam uma certa timidez e fragilidade.
- Jude. - Respondi usando meu melhor tom de voz, e acho que seria prepotente afirmar que seus músculos relaxaram ao também ouvir o meu nome. Sorrimos em sincronia e a escutei sussurrar “Até mais, Jude”.
Lucy, Lucy, Lucy, Lucy, Lucy. Esse nome não saia da minha cabeça, como seu rosto; como seu corpo; como sua voz; como seu perfume; como seu sorriso; como ela por inteira. Meu coração batia mais forte ao pensar nela. Todos os meus pensamentos deram espaço para o nome dela, ela predominava na minha mente mais do que nunca.
Mas com um destino infeliz, comecei a ver Lucy menos vezes. Ela começou a sumir, isso me deixou louco. Eu ficava desesperado quando tinha que almoçar sem vê-la; quando ficava sem trocar sequer um bilhete; quando tinha que voltar com a rosa para casa, mas quando a via era como se tudo isso fosse apagado, eu esquecia tudo, só me lembrava de olhá-la. Eu estava completamente apaixonado e eu não me importava, o que era tudo e todos, se não ela? O que era qualquer nome, se não fosse Lucy? O que era ver diversos rostos, se nenhum se comparava ao dela? Nada.
Love you every day, girl
(Eu amo você todos os dias, garota)
Always on my mind
(Sempre na minha mente)
One thing I can say, girl
(Uma coisa que eu posso dizer, garota)
Love you all the time
(É que eu amo você o tempo todo)
VII. Hold Me Tight - The Beatles
Meses já tinham se passado desde que eu tinha visto Lucy pela primeira vez e algumas semanas desde que ela tinha me permitido adentrar um pouco em seu universo particular ao me contar seu nome e mais alguns detalhes, com o decorrer dos dias. Detalhes que não iriam me atrair ou fazer algum sentido se fossem de outras pessoas, mas é de Lucy que estamos falando. Eu me sentia completamente parvo e importante ao ouvi-la falar sobre coisas banais e as admirar tanto, como suas ínfimas manias de pentear os cabelos ruivos há cada trinta minutos e de sempre ter um lenço em sua bolsa, ou o fato de ser uma apreciadora de chá de Erva-Cidreira, de vestidos Yves Saint Laurent e Mondriant e de ver o sol nascer.
O que era outono quando a vi ultrapassar a multidão já tinha se transformado em primavera. E junto com o florescimento das plantas veio o famoso baile que ocorre todo ano em Londres desde que meu avô era jovem e todas as pessoas escutavam um bom Jazz Swing e Bepop. Na primavera tudo brilha; o vento sopra forte, mas gostoso; os passarinhos cantam e as flores nascem; é uma estação de sonhos e vida nova e é o que o baile transmite a todos os cidadãos londrinos, aonde dançam e se divertem com a família e amigos. Surgiu como uma forma de esquecer o contexto histórico que o mundo estava presenciando que foi repleto de conflitos armados ocorridos na Primeira Guerra Mundial para olhar as coisas de uma forma mais otimista, ou seja, festejando a primavera.
É uma tradição que sempre adorei, mas nunca vi tanta importância como dessa vez. Eu sempre ia ao clube principal da cidade curtir e beber entre amigos nessa data, às vezes até ia acompanhado, mas nunca nada especial. Só que dessa vez eu tinha Lucy e todos os milhares de cartazes azuis espalhados pela cidade anunciando o dia e a hora do baile me faziam criar vontade de convidá-la como minha acompanhante. Foi aí que resolvi quebrar qualquer barreira que eu ainda mantinha com Lucy; resolvi ultrapassar qualquer limite que tínhamos mantido. Estava temendo o que iria vir, mas eu sabia que era o certo a fazer, ou pelo menos o que parecia ser certo. Fui até o “Prudence’s”, torcendo mentalmente para ela estar lá, eu não iria conseguir fazer outro dia. Quando a vi sentada, tomei ar e coragem e fui andando, sem flor dessa vez, apenas com o convite do baile em mãos que, dependendo, poderia se transformar na melhor noite da minha vida por estar acompanhado de Lucy.
Ao me aproximar, seu rosto estava atento ao meu notando o ar que me faltava e o nervosismo que corria em minhas veias. Estiquei o pequeno papel azul. Minha mão tremia e meu coração saltava.
- Aceita me acompanhar? - Minha voz saiu rápida e tremula. Lucy ficou um certo tempo encarando o papel que encaixava perfeitamente na palma de sua mão direita. Levantou a cabeça pensativa e respondeu com um sorriso nos lábios.
- Oito horas estarei lá. Sorri ao ouvir, o baile seria no dia seguinte e minha ansiedade já me atavaca, faltavam mais de 30 horas. Eu queria que essas infinitas horas passassem e que a tão esperada noite chagasse para eu poder tê-la pela primeira vez em meus braços.
So hold me tight
(Então me abrace apertado)
Tonight, tonight
(Esta noite, esta noite)
It’s you,
(É você,)
You, you, you
(Você, você, você)
VIII. A Taste Of Honey - The Beatles
Olhei para o meu relógio e faltavam seis horas e treze minutos até às oito horas. O tempo não passava, o que só aumentava a minha tensão. Nunca tinha ficado tão nervoso por alguma garota, mas essa era a Lucy; aquela Lucy; a minha Lucy. Eu estava há tantos meses ocupando minha mente com apenas Lucy que eu não percebia mais nada que acontecia em minha volta. Esquecer datas importantes e informações familiares começou a ser normal, era só Lucy. As minhas poucas amizades que eu vinha mantendo desde que me formei na faculdade ou até mesmo do colegial pareciam cada vez mais distantes desde que eu a tinha conhecido. Os poucos que eu trocava uma palavra ou duas eram os que dividiam o mesmo escritório de advocacia do qual eu trabalhava, mas nada que passasse de “bom dia” ou “obrigado” quando Adelaide, a secretária, me servia um café e trazia minhas papeladas ou um aperto de mãos e uma leve risada quando Duward passava pela minha mesa fazendo qualquer brincadeira relacionada à esporte, ele era viciado por esportes principalmente corrida de cavalos.
Eu não tinha percebido o quanto estava ficando obcecado por ela até aquele dia, o qual eu finalmente poderia tê-la tão perto. A única coisa que eu conseguia fazer o dia inteiro era olhar pro relógio e isso começou a despertar uma dúvida, um ponto de interrogação na minha mente, se esse comportamento era certo e até mesmo normal. Depois de horas divagando sentado em um dos bancos da praça, que dava de frente ao meu escritório, com um cigarro entre os lábios e os braços apoiados nos joelhos notei que Lucy não passava de uma estranha na minha vida. Uma adorável estranha que me retirava suspiros sem um motivo ao certo. E que faltavam poucas horas para eu poder finalmente ter o que espero há tantos meses: poder ver o seu rosto tão de perto e poder senti-lo com minhas próprias mãos. Ou era pelo menos tudo que eu esperava. Realmente não era normal todo esse sentimento, mas me parecia mais do que certo.
Ajustei meu paletó e olhei mais uma vez para o relógio, sete horas e cinquenta e oito minutos; dois minutos, só restavam isso. Minhas mãos suavam frio; arrumei minha gravata e encarei a entrada do clube, só me desviando para cumprimentar um ou outro que passava. Fazia quase uma hora que eu estava lá, me senti estúpido por ir tão mais cedo, mas fui com a desculpa a mim mesmo que iria para apreciar a decoração e degustar uma bebida ou outra antes dela chegar. Mas acabei bebendo mais do que dois ‘Martinis’ como eu esperava e quase nem vi a decoração, só percebi que todas as mesas estavam com toalhas coloridas e que tinha folhas espalhadas pelo local inteiro. Eu sabia que Lucy iria vir, mas mesmo assim minha cabeça pensava na possibilidade de eu ficar a noite inteira esperando.
Oito horas em ponto e a porta se abriu me presenteando com a mesma imagem do primeiro dia que eu a vi. Ela estava encantadora dos pés a cabeça. Seu vestido ao mesmo tempo justo e largo modelava mais o seu corpo; seus cabelos soltos caindo nos ombros e sua maquiagem destacava o seu rosto. Sua beleza incomparável estava impressionantemente maior, estava perfeita. Estava vindo na minha direção, era como sonhar acordado; era como ver o meu sonho vindo para mim. Seu olhar apaixonante só conseguia ficar preso aos meus olhos; seu sorriso era contagiante. Muitos a olhavam, tinha certeza que muitos a queriam naquele momento, mas ela era minha, ou pelo menos ia ser. Em frações de segundos Lucy se aproximou.
- Boa noite, Jude. - Ela disse me encarando com um olhar misturado de ingenuidade e maturidade. Não falei nada naquele instante apenas a levei para a pista de dança.
Depois do instante que ela chegou perto de mim o suficiente para eu conseguir sentir o aroma dos seus cabelos e a potência de sua presença, eu não pensava mais em nada, tudo tinha sumido. Estávamos dançando no meio do salão, com mais meia dúzia de casais, uma música da qual eu lembro até hoje. Era um blues animado do Muddy Waters chamado ‘Got my Mojo working’, era novidade e sucesso na época em todo o Reino Unido. Às vezes ainda me pego cantarolando o refrão “Got my mojo working, but it just won’t work on you”. Eu posso ter me esquecido de várias coisas que aconteceram na minha vida, ou até mesmo detalhes e acontecimentos dessa história em si que estou lhes contando, mas nunca me esqueceria da primeira música que eu dancei com Lucy. Trocamos poucas palavras, apenas as necessárias com o decorrer das músicas e da nossa dança. Não precisávamos nos falar quando nossos olhares e sorrisos demonstravam tudo. Estava claro em que nós dois estávamos envolvidos pelo momento como se não houvesse mais nada. Uma música calma, e desconhecida por mim, começou a tocar e mais casais foram para o centro do salão dançar. Quando vi, a cintura de Lucy estava entrelaçada com o meu corpo e seus braços em volta do meu pescoço - comecei a ter arrepios frenéticos pelo corpo. Ela era real e estava dançando comigo. Nossos corpos estavam tão perto que pareciam ser um só, a sintonia perfeita. Ela passou os dedos pelos meus cabelos e depositei um beijo em sua testa como sinal de carinho e segurança. Logo depois de ver que Lucy não exerceu nenhuma má reação ao me sentir tão próximo fiz o que precisava fazer há tempos; fiz o que eu sentia necessidade: selei nossos lábios. Eu sabia que muitos estavam parados nos olhando no momento, mas eu não me importei e pelo visto nem ela. Lucy não hesitou; ela respondeu ao meu contato. Ao sentir o gosto doce de sua boca, esse detalhe de mal nos conhecermos e de sermos completos estranhos, que me assolou mais cedo, ficou mísero para mim. Nós explorávamos um ao outro, como se fosse uma maneira de nos conhecermos melhor. O beijo era intenso, era cheio de paixão e até um certo desejo. Era tudo que eu queria; que eu precisava; que eu necessitava; que eu desejava.
A paixão que nos ligava se intensificou tanto ao ponto de terminarmos a nossa noite perfeita em minha casa, mais especificamente no meu quarto. Pode-se dizer que fomos precipitados, imaturos e irresponsáveis, como disse antes, mal nos conhecíamos. Mas pode-se dizer também que foi a melhor noite da minha vida. Para uma estranha Lucy era incrível, em todos os aspectos. Quem diria que aquele rosto tão louvado e sonhado por mim seria tão meu em uma noite.
I dream of your first kiss and then
(Eu sonho com o seu primeiro beijo e então)
I feel upon my lips again
(Eu sinto sobre meus lábios novamente)
A taste of honey, tasting much sweeter than wine.
(Um gosto de mel com sabor mais doce do que vinho)
IX. Like Dreamers Do - The Beatles
Acordei no dia seguinte com a luz do sol atravessando as grossas janelas antiquadas. Elas já possuíam até uma coloração branca desgastada, dando impressão de serem mais antigas do que realmente eram. O sol estava forte parecendo ser por volta de mais de duas horas da tarde, o que me preocuparia se fosse qualquer outro dia por acordar esse horário, mas nesse eu me sentia diferente. Eu estava me sentindo leve, como se o vento fraco fosse capaz de me levar pra qualquer lugar. Sentia-me também completo e capaz de fazer tudo que possa ser imaginado. Na verdade, eu me sentia bem de uma maneira difícil de explicar em forma de palavras. Um sorriso se estampou no meu rosto ao me lembrar da noite anterior. Cada pedaço do que houve antes de eu dormir pesado foi reconstituído na minha sagaz memória. Todos os mínimos detalhes apareceram vivos, coloridos e fortes em minha mente. De olhos fechados, as cenas rondavam meu quarto e eu me sentia inteiro. O ardor da alegria era estancado da minha alma e eu sentia todas aquelas sensações do dia anterior de novo. Olhei para o lado esperançoso com a vontade de viver carregada nos meus olhos, mas só encontrei um travesseiro amassado e minha frustração. Lucy não estava lá, seu lugar estava vazio.
Levantei pesadamente de onde eu estava me sentindo culpado por ter me deixado frustrar tão facilmente. Sentia péssimo por ter enchido o peito de tanta felicidade sem ter pensado que eu poderia dormir com a melhor noite da minha vida e acordar com a cama vazia. Sentia-me a pior pessoa do mundo por conseguir me iludir tão facilmente sem perceber que Lucy era uma pessoa que ia além do que eu imaginava, ela não era apenas uma imagem criada na minha mente. A imagem correspondia a todos os meus desejos, mas ela não era apenas isso. Lucy tinha uma vida que eu desconhecia e uma personalidade que nunca tinha explorado para saber como ela agiria nessas situações. Todas as sensações de minutos atrás deram espaço para um sentimento sorrateiro, destrutivo, forte, eficaz e ativo... o da desilusão.
Depois de passar um longo tempo pela casa divagando sobre a circunstância dela ter agido dessa maneira, por ter parecido tão calma e confiável na noite anterior enquanto estávamos deitados um do lado do outro apenas nos olhando e conversando sobre nossos gostos musicais e os últimos livros que lemos para fazer tal coisa, observei que no criado-mudo cor ébano havia um papel dobrado com o destinatário preenchido pelo meu nome. Estiquei meu braço presunçosamente e o peguei sem imaginar o que poderia ser. O abri devagar e antes de ler o endereço que estava escrito reconheci a letra torta e fina, parecia barroca por causa de seu esplendor exuberante. Sentia-me estúpido por imaginar essas coisas em momentos que tudo que eu queria transcender era a braveza, só que eu sorria de orelha a orelha apesar de tudo.
Fiquei umas boas horas brigando mentalmente sobre o que faria, o que deveria sentir. Uma parte de mim queria ignorá-la por ter me feito achar que eu era um objeto imprestável que não precisa de explicações e que não merece nem ao menos um “bom dia” no dia seguinte. Mas outra, bem maior e poderosa, tentava me convencer que ela poderia ter motivos para tal e que eu poderia sentir de novo a felicidade que senti quando acordei se a procurasse. Era uma discussão entre o orgulho e a vontade; a razão e a emoção; o dever e o prazer. Só que desde que eu a conheci eu vivia subordinado dessas segundas opções, não ia ser diferente desta vez.
Não sabia se ia ser ridículo e impotente, mas guardei o papel nas minhas coisas e saí de casa. Durante o caminho todo dividi meu tempo entre dirigir o carro e olhar para o papel que estava depositado em cima da minha perna direita. Não estava me importando se iria parecer desesperado, eu precisava disso. Fiquei me intrigando sobre no que daria aquele endereço. Uma intriga que só foi solucionada ao estacionar em um parque meio afastado da cidade. A avistei um pouco distante e meu corpo relaxou no banco. Lucy vestia um casaco vermelho, que não estava com ela na noite anterior, e o ar misterioso de sempre. Nessa hora percebi que a palavra “mistério” podia resumir todo nosso relacionamento e eu não estava me importando muito com isso mais.
And I waited for your kiss
(E eu esperei pelo seu beijo)
Waited for the bliss
(Esperei pela felicidade)
Like dreamers do
(Como os sonhadores fazem)
X. All My Loving - The Beatles
Em todos os segundos que levei para sair do carro e ir ao encontro dela, que estava apenas parada me olhando, fiquei ensaiando mentalmente diversos assuntos que eu deveria falar. A brisa estava forte, demais para aquela época do ano, e o verde do parque reluzia. Estava intenso o clima tanto da natureza como o que circulava entre nós. Nesse meio tempo uma energia potente atravessava meu corpo, indo desde os meus pés até o meu cabelo amassado e desarrumado. Ao me aproximar daquela mulher com uma beleza que agradava meus olhos e minha mente descobri que eu não aguentaria deixá-la escapar dos meus dedos e da minha vida. Alguns anos mais tarde que eu percebi que a forma que ela entrou na minha rotina e me fez envolver por ela podia ser explicado por Voltaire e por Charles Tschopp em suas teorias sobre o acaso. Conhecemos-nos por uma causa de efeitos desconhecidos e foi um instrumento do destino para que seu plano conosco fosse realizado. Só que eu não sabia muito bem disso naquele momento, na verdade eu não sabia de nada, só sabia sorrir.
Tudo que eu tinha pensado no que falar enquanto caminhava fugiu da minha cabeça. A ideia de perguntar o porquê de seu sumiço ou se tinha apreciado o nosso momento juntos desapareceram, só consegui falar uma coisa.
- Quer dar uma volta? - Perguntei com as minhas mãos enfiadas nos bolsos em reação a brisa que ainda batia no meu corpo. Joguei para trás o tufo de cabelo que caia sobre o meu rosto em um rápido movimento do pescoço. Eu tinha essa mania quando estava nervoso, mas nunca admiti. E perto de Lucy até um convite para um passeio me deixava nervoso, apesar de tudo.
- Claro. - Sorriu mostrando todos os dentes brancos e se aproximou mais de mim entrelaçando nossos braços. Esqueci qualquer descontento que eu ainda carregava sobre o episódio mais cedo e andamos pelo parque como se fossemos namorados de longa data e sem nenhuma desavença no meio do nosso relacionamento. E era o que eu gostava de imaginar que éramos, mesmo sabendo que não éramos nem namorados. Quando percebi já estava de noite e já estava beijando-a na porta de casa mesmo. Era lá que eu encontrava o que eu precisava, em seus beijos. Em menos de segundos já estávamos subindo as escadas sem nos desprender do beijo, que estava mais intenso do que na noite anterior. Fomos para o meu quarto tomando cuidado para desviar dos móveis que surgiam em nosso caminho, mas uma vez ou outra nossos corpos esbarravam em algo tornando um barulho que ecoava por toda a casa e ríamos toda hora que isso acontecia. Ríamos sem motivo, sem explicação e sem intenção, ríamos apenas por estarmos juntos e é isso que eu chamo de amor e felicidade. Eu me sentia amado e feliz e tinha certeza que ela também. Lucy era tão misteriosa e perfeita ao mesmo tempo, eu poderia ficar sentado vendo-a se despir minha vida inteira, como se fosse uma maldição... uma terrivelmente doce maldição. Ao vê-la deitada sobre minha cama de novo não consegui me controlar e a abracei. Um abraço carinhoso e tão cheio de amor. Pode ser ousadia usar essa palavra em tão pouco tempo de contato e intimidade, mas era o que eu sentia. O calor dos nossos corpos juntos me causava pequenos choques bons que realçavam a chama do desejo.
- Você é tudo que eu sempre quis. - Disse a ela sem o menor pudor, não conseguia mais guardar isso apenas comigo, precisava compartilhar com a pessoa que gerou tal vontade em mim.
- Você também, Jude. Você também. - Disse em tom amoroso enquanto contornava minha bochecha esquerda com o seu polegar não se espantando em me ouvir pronunciar essas palavras. Lucy sempre parecia não se espantar com nada e nem ficar surpresa, uma das coisas que mais me fez encantar por ela foi essa maneira dela de lidar com as situações, ela as dominava.
A beijei de novo, agora um beijo mais apaixonado e com menos desejo. Era uma sensação tão boa saber que eu era correspondido, eu me sentia capaz e vivo. Essa noite foi mais perfeita que a outra, nela eu enviei para Lucy todo o meu amor.
Close your eyes and I’ll kiss you
(Feche os olhos e eu irei te beijar)
Tomorrow I’ll miss you
(Amanhã sentirei saudades de você)
Remember I’ll always be true
(Lembre-se que eu sempre serei verdadeiro)
And then while I’m away
(E quando eu estiver fora)
I’ll write home everyday
(Eu vou escrever para casa todo dia)
And I’ll send all my loving to you
(E enviarei todo meu amor para você)
XI. Love Me Do - The Beatles
Não me assustei dessa vez de acordar e não encontrá-la do meu lado, no fundo já esperava isso. Essa era a Lucy que eu já ousava chamar de minha. Ela era previsivelmente imprevisível. De novo achei um papel dobrado escrito “Para Jude” no travesseiro. Abri com pressa querendo saber qual informação teria dessa vez, esperava um “bom dia”, pelo menos.
“12h23”. Apenas isso. Não sabia o que essa hora marcada significava, nem o porquê de ela ser tão específica. Todo esse mistério de Lucy me consumia de um jeito que eu já estava quase nulo, era como se não houvesse mais nenhum espaço na minha mente para ser ocupado. Confesso, essa hora incerta sem mais nenhum complemento me pegou de uma maneira peculiar. Não era necessariamente pelas horas, mas sim pela forma fria da qual ela escreveu, revelou a submissão. A minha submissão. Eu senti meu orgulho pela primeira vez se remexendo dentro de mim, como se uma pequena voz quisesse se propagar. Mas aquela cama ainda quente de lembranças da noite anterior me acalmava temporariamente. Era inquestionável que eu estava louco por ela, mas pela primeira vez uma pontada de razão me tomou por segundos. Não sabia em que nível isso poderia chegar algum dia. Na verdade, até hoje eu não sei.
Me troquei um pouco sem vontade e me dirigi até o “Prudence’s” de uma forma presunçosa. Estava com receio de estar errado, mas o que eu tinha entendido é que essa era a hora que eu deveria encontrá-la e, bom, devia ser no lugar de costume. E se não fosse, com certeza o meu humor daquele dia não iria contribuir em nada.
Entrei na lugar carregado pela minha vontade incondicional de vê-la, mesmo com um humor não muito agradável eu não poderia negar que a vontade de encontrá-la era ainda assim maior e não sei se conseguiria passar o dia inteiro sem os toques e os beijos dela. Pode parecer estranho dizer dessa forma, mas a sua presença já estava fazendo parte da minha rotina. Ou melhor, já era a minha rotina.
A avistei logo de cara, estava como sempre sentada no mesmo lugar e eu involuntariamente sorri. Andei em sua direção deixando um pouco o mau humor de lado e tentando não demonstrar que ela tinha me chateado, mesmo que indiretamente. Para ser sincero, aquilo estava tão mínimo só de ver seus lábios se contorcerem no meu nome me chamando para sentar ao seu lado.
- Já pediu algo para comer? - Perguntei calmamente, tentando realmente não mostrar nenhum resquício de raiva. Raiva, que palavra forte, se tratando de Lucy. Eu me convencia mentalmente que ela não tinha feito por mal e que o problema era eu.
- Não, estava te esperando. - Me lançou o olhar mais doce que eu já tinha visto vindo dela. Agora eu já estava totalmente convencido que tinha acordado com o pé esquerdo e que ela tinha apenas agido como de costume, nada demais.
Lucy entrelaçou sua mão na minha e beijou minha bochecha esquerda. Nem preciso dizer em que patamar minha felicidade estava naquele momento.
Passamos a tarde inteira juntos vagando pela cidade. Fomos ao cinema que tinha aberto há pouco e assistimos “La Dolce Vita”, que de uma forma totalmente estranha me identifiquei. Lucy era a minha Sylvia, com todo seu deslumbre, traços totalmente simétricos e encantadores, mistério, aventura e espontaneidade. E eu com certeza era o Marcello, o cara chato fascinado por Sylvia ao ponto de viver uma simples loucura.
Nosso maravilhoso dia terminou na minha cama, para variar. Mesmo eu não sabendo o que seria no dia seguinte, eu gostava muito de ter Lucy nos meus braços e poder adormecer ao seu lado. Passei o resto da madrugada observando-a dormir apenas pela sensação que me proporcionava. Sabia que a manhã do dia seguinte poderia ser tão lúgubre como a de hoje, mas eu não queria me importar com isso agora. Não queria pedir para que ficasse, para que não saísse, para que me esperasse... não queria forçar, porque sabia que isso não a fazia menos minha - gostava de acreditar nisso.
- Boa noite minha Sylvia Rank.
Love, love me do
(Amor, me ame)
You know I love you
(Você sabe que eu te amo)
I’ll aways be true
(Eu sempre serei sincero)
So please, love me do
(Então por favor, me ame)
Oh, love me do
(Oh, me ame)
XII. I’m a Loser - The Beatles
Agora muitas noites eram realizadas no meu quarto e no dia seguinte algo novo eu encontrava, através de seus bilhetes sempre intitulados “Para Jude”. Queria perguntar o porquê, mas tinha medo que um detalhe sequer estragasse tudo. Muitas vezes tentei não dormir só para que eu a visse indo embora, mas por mais tempo que eu aguentasse, ela sempre ia depois que eu adormecia - por mais tarde que fosse. E toda a exaustão de uma noite mal dormida refletia no escritório. Eu não conseguia nem admitir a mim mesmo que minha cabeça poderia estar tão ocupada ao ponto de não conseguir nem ao menos prestar atenção nas fichas dos clientes, quanto mais admitir aos outros. E todos estavam notando meu baixo desempenho. Para alguém acostumado com elogios pelo alto rendimento era algo frustrante.
Há anos que eu acompanhava o caso do Sr. Alfie, um senhor de elevada idade, estatura baixa, cabelos grisalhos e ralos, olhos saltados e expressão carrancuda, mas uma personalidade amável. Ele não tinha nada, nem ninguém, apenas um pedaço humilde de terra da qual ele gostava de criar suas galinhas e plantar suas hortaliças e esperanças, só que o espaço foi arrancado dele por um fazendeiro local. Desde então eu cuido do seu caso na justiça e só vinha tendo altos resultados. Tinha conseguido, primeiramente, provas que a terra pertencia ao seu pai falecido desde que o pobre Alfie ainda era um garoto. Depois, a oportunidade de que ele pudesse continuar morando no lugar mesmo que ainda estivesse em aberto o processo. Mas a partir um certo momento, que eu particularmente o chamo de momento que Lucy entrou na minha cabeça e espremeu o que tinha sobrado da minha razão e sanidade deixando apenas o lado emocional palpitando como um relógio cuco, eu estava falhando. Sr. Alfie agora estava mais longe de ganhar de volta suas merecidas terras do que quando começou e isso me cortava o coração semelhante a uma faca cega - machucava lentamente.
Quando vi os últimos resquícios de esperanças se afogarem naqueles pequenos olhos saltados comecei a sentir que meu egoísmo chegou ao nível extremo, por deixar que minha vida e seus rolos me cegassem do que estava a minha volta. Não queria pela primeira vez falar com a Lucy, muito menos pensar nela. Não que eu achasse que fosse de alguma forma culpa diretamente dela, não tinha chegado nesse grau ainda. E pra ser sincero, nunca chegou. Mas eu queria me afastar, era como se os problemas começassem a se entrelaçar um no outro e não me deixassem escapar desde o segundo que eu encostei meus olhos naqueles dois mares azuis côncavos. Eu acreditava ingenuamente que me afastando dela tudo iria começar a ser mais fácil. Ledo engano, tudo que eu via na rua a lembrava, todas as mulheres que passavam por mim se pareciam com ela de algum jeito. Perdi as contas de quantas pessoas chamei por engano de “Lucy” e de quantas vezes tentei ignorar que La Dolce Vita estava virando febre na Inglaterra. Todos apenas comentavam desse filme e a foto da Anita Ekberg, que interpreta Sylvia Rank, estava estampada por toda Londres. Sem contar, apesar de tudo, que a maneira que me distanciei dela bruscamente me afundou de um jeito que acho que nem a palavra “tristeza” consegue definir. Estava com receio de que ela estivesse tão ofendida que nunca mais quisesse olhar na minha cara de novo, não conseguia imaginar nunca mais sentindo o ar quente e doce dos seus lábios. Eu não sabia o que era pior realmente: a submissão que eu tinha dirigido minha vida por meses ou a solidão que eu estava começando a trilhar. Estava me sentindo o maior perdedor do mundo por estar afastando de mim a única pessoa que realmente me deixava feliz com a ilusão que isso iria melhorar de certa forma alguma coisa da minha vida.
Although I laugh and I act like a clown
(Embora eu ria e aja como um palhaço)
Beneath this mask I am wearing a frown
(Atrás dessa máscara, eu estou com o rosto triste)
My tears are falling like rain from the sky
(Minhas lágrimas estão caindo como a chuva cai do céu)
Is it for her or myself that I cry?
(É por ela ou por mim mesmo que eu choro?)
I’m a loser, and lost someone who’s near to me
(Eu sou um perdedor, e eu perdi alguém que esava próximo de mim)
I’m a loser, and I’m not what I appear to be
(Eu sou um perdedor, e eu não sou o que eu pareço ser)
XIII. Strawberry Fields - The Beatles
Dias e semanas se passaram e toda noite eu deitava de olhos abertos apenas contemplando a escuridão que não me deixava perceber que havia um espaço vazio gigantesco do meu lado vociferando a verdade: nada tinha melhorado quando decidi me afastar de Lucy, meus problemas só cresceram. Eu não sabia mais aonde pisar, como andar e nem saber para onde eu estava caminhando com esse possível futuro gélido. A imagem dela seguiu na minha imaginação todo santo dia e eu estava sentindo algo novo que me arrebatou de uma maneira grotesca, o remorso. Eu não sabia aonde eu estava com a cabeça quando parei de ir ao seu encontro; quando deixar de procurá-la. No fundo realmente esperava que ela fosse atrás de mim, era como se eu esperasse que ela me resgatasse. Só que ela não foi. E era como se meu peito estivesse comprimido fazendo com que o ar dos meus pulmões me machucassem. A angústia crescia todo dia acompanhada de uma completa incerteza de que se Lucy me aceitaria de volta. Tinha medo de ir atrás e ter que admitir meu erro... e se fosse tarde demais? Mais Srs. Alfie apareceram na minha vida de variados jeitos, os problemas estavam impregnados no meu cotidiano com várias faces. Mas apesar de todas essas sensações, eu não conseguia mudar; eu não conseguia ir atrás. Inutilmente, eu esperava que um dia eu fosse acordar e ver que uma luz de cabelos ruivos iria acender. Me sentia tolo por isso, era como se meu nome fosse Jude, O Tolo. Eu não estava realmente entendendo nada do que acontecia comigo há muito tempo mesmo, era como se tudo acontecesse de uma maneira rápida e sem um sentido. Eu estava desconexo dos meus próprios atos de um jeito que eles pareciam ser de outra pessoa, uma que não era eu. Eu era um na minha mente outro nos meus atos.
Esses dois “eu” entrou em um ponto crítico quando eu fui ao “Prudence’s” sorrateiramente apenas com a intenção de vê-la longe, mas não ir conversar ou perguntar como ela estava. A única pergunta que eu realmente queria fazer era “aceita de volta o tolo que sumiu sem motivo algum?”, mas parecia ridículo demais até nos pensamentos. Queria ter certeza, antes de me reaproximar, da imagem que ela mantinha de mim, mesmo sendo completamente difícil pela distância que eu mantinha com ela e sem nem sequer trocar um olhar, quanto mais uma palavra.
O que me pegou de uma forma totalmente desprevenida como uma ventania de começo de inverno, seca, gelada e cortante, foi avistá-la como se nada tivesse acontecido. Ela estava lá no “Prudence’s” sentada em seu habitual lugar, com seu habitual sorriso e vestida com seu habitual vestido azul que eu gostava tanto pela maneira que se contorcia em seu corpo. A única diferença era seus cabelos ruivos que estavam soltos escorridos pelos ombros, o que a deixava com uma expressão muito mais jovial. O que me machucou de verdade foi ver o sorriso contagiante e apaixonante solto no ar para todos que passassem. A Lucy que eu conhecia era séria e introvertida, custou algum tempo para eu arrancar-lhe um sorriso tão espontâneo e eu estava com ciúmes dos homens que lhe arrancaram de uma forma tão involuntária. Eu ignorava o fato de que eu não tinha direito nem a ter ciúmes pela maneira que agi. Ela não parecia realmente uma mulher comum que teve recentemente um caso com um cara que do nada resolveu desaparecer, mas ela nunca foi comum. Lucy parecia mais feliz do que nunca foi comigo.
Carregando um misto de ciúmes e descontentamento próprio, sai pelas portas daquela lanchonete que era recheada de vários dias que viraram memórias que, mesmo eu não querendo no momento, martelavam na minha mente. Não esperei mais nenhum segundo dentro daquele lugar, não queria que Lucy me visse; não queria ver mais nada. No caminho de volta eu proliferava palavras sem nem perceber. - Só queria que você me visse e percebesse que não acabou.
Não sabia para onde estava indo, só andava e seguia um caminho que eu já conhecia há tempos e que não era mais parte do meu cotidiano. Era como fingir que eu era outra pessoa, a pessoa de antes de ter o nome “Lucy” no meu vocabulário e que quase não tinha problemas.
- Eu deveria ter evitado tudo isso.
Não sabia sobre o que eu estava me referindo: se era por eu ter parado de encontrá-la ou se era por eu ter ido atrás há menos de uma hora.
- Não me importo.
Não sabia quem eu queria enganar, mas jogar essas palavras ao vento me davam uma falsa confiança. Olhei em volta e pessoas passavam por mim todas com feições muito melhores do que eu.
- E pensar que até outro dia eu parecia melhor do que elas.
Não sabia como o tempo tinha voado; como o ontem minha vida parecia uma e o hoje era outra. Tentei não pensar em qual seria minha vida no amanhã, se estaria melhor, pior ou estática.
- Não sei de mais nada.
As últimas palavras conclusivas soaram como um suspiro de neblina e com os olhos vazios, os lábios crispados, formando apenas um risco quase inexistente, as mãos dentro dos bolsos do paletó e os pés em passos saudosos, entrei em um pub que estava logo a frente que eu já conhecia de outra época.
Living is easy with eyes closed
(É fácil viver com os olhos fechados)
Misunderstaning all you see
(Sem entender tudo que você vê)
It’s getting hard to be someone
(Está ficando difícil ser alguém)
But it all works out
(Mas tudo se resolve)
It doesn’t matter much to me
(Não importa muito para mim)
CONTINUA...
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